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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A fuga da dor como fuga da vida

por María del Prado Esteban

“Viver é lutar e a luta sempre é dolorosa.” Félix Martí Ibañez 


O uso de antidepressivos disparou em toda Europa, praticamente dobrou no último decênio. No Estado espanhol o consumo destes fármacos aumentou em 38%, porém o de hipnóticos e sedativos o fez em 66% e esse crescimento é, além disso, exponencial.

A utilização de psicotrópicos é especialmente aterradora entre as mulheres, ao menos 25% da população feminina toma algum narcótico para aliviar a dor de viver.

Não há dúvida de que a vida se tornou cada vez mais insuportável para um número crescente de pessoas e principalmente de mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Ministério de Sanidade e Consumo (Espanha), a depressão feminina passou de 6, 58% para 20, 49% entre 2003 e 2006. Isto quer dizer que o número de enfermas psíquicas [1] triplicou em apenas três anos, anos que foram, ademais, os das grandes campanhas institucionais a favor da mulher e da criação do primeiro Ministério da Igualdade.

O certo é que emerge uma nova personalidade débil, mole, egocentrada de forma narcisista, incoerente e minguada, cujas emoções não sustentam suas funções superiores, mas as anulam; que essa personalidade é muito mais comum entre o sexo feminino e que este sujeito, assim constituído, é um potencial viciado em substâncias psicoativas, sejam estas legais ou ilegais.

A verdade é, também, que tal indivíduo está sendo criado pela intervenção dos funcionários do Estado do bem-estar que incorporam cada vez mais pessoas ao seu protocolo de medicalização, convencendo assim seus pacientes que a vida não vale a pena ser vivida e que tudo o que podemos fazer é anestesiar o corpo [2] e a alma para não sofrer, não pensar e não sentir.

Enquanto as substâncias químicas nos envenenam o corpo, apareceu um novo mercado de narcóticos espirituais dirigidos de forma especial à população feminina, uma indústria que proporciona numerosos benefícios aos vendedores da cura milagrosa e da felicidade ao pé da letra. Cursos, oficinas e encontros que prometem uma beatífica apatia como paradigma da alegria e do otimismo. Estas drogas, tão nocivas como as primeiras, nos oferecem uma saída escapista da realidade e permitem que nossa vida autêntica siga se degradando enquanto fechamos os olhos e destruímos nosso mundo interior para converter-nos em autômatos sorridentes e apalermados, cegos frente ao horror da realidade circundante e à nossa própria condição.

Há uma grande tragédia na incapacidade moderna para a aceitação da dor, uma tragédia autêntica, porque esta fuga do mal-estar, paradoxalmente, aumenta até o infinito o padecimento pessoal e social. Renunciar ao sofrimento significa renunciar a muitas coisas fundamentais que dão sentido à vida. Significa:

1. A renúncia à consciência do mundo, da verdade e do real. O esforço para aproximar-se da verdade das coisas é amargo porque implica um trabalho árduo, ás vezes sobrehumano para superar as barreiras descomunais que o sistema impõe. A vitória sobre a mentira e o erro não é fácil nem cômoda, é dura e sofrida, nos condena a viver com consciência de nossas limitações e, muitas vezes, em meio a incertezas e dúvidas. Por outro lado, a defesa da verdade requer uma enorme dose de coragem e desprezo pela tranquilidade e pelo próprio bem-estar. Hoje, na sociedade da mentira obrigatória, os que lutam pela verdade estão condenados ao ostracismo, perseguição, opróbrio e humilhações sem limites. Quem quiser, pois, alcançar a realidade do mundo e tomar consciência da verdade das coisas, terá que aceitar a dor que isso traz.

2. Quem teme o sofrimento tem de renunciar ao amor. Todas as categorias de amor – o amor sexual, o amor maternal, o amor fraterno, o amor social, a amizade e o amor por convivência, todas – produzem em algum momento a angústia pela incompreensão, o medo da separação e do abandono, o sentimento de vulnerabilidade e dependência. Os vínculos e compromissos amorosos implicam esforço e sacríficio e a abnegação do interesse próprio. Se o amor é uma das experiências humanas mais sublimes e extraordinárias, não está isenta quase nunca, como tudo o que é sublime, do lado trágico. Nas condições atuais de destruição quase total das estruturas de vinculação e compromisso humano, a luta para reconstruir a convivência nos campos social e pessoal terá mais momentos dolorosos do que prazerosos.

3. Quem não está capacitado para o sofrimento não pode alcançar o conhecimento de si mesmo nem auto-construir-se como pessoa, porque todos somos seres divididos e o olhar dirigido ao nosso interior, se é valente e sincero, é doloroso. Quem não estiver disposto a aceitar a realidade de si mesmo por medo da angústia de ver seu lado obscuro, não pode desenvolver em si nem virtude nem excelência alguma, pois todo desenvolvimento implica negação, vazio e privação, e, portanto, desconforto. O medo da dor está nos convertendo em seres-nada esvaziados dos traços humanos de consciência, virtude, vontade e entrega.

4. Quem não está disposto ao sacrifício não pode resistir ao mal que avança inexorável em toda a sociedade, vê-se impelido a colaborar com ele ativa ou passivamente. Não pode, por isso, contribuir para a investida do bem, do justo, do belo e do sublime em todos os âmbitos da vida porque qualquer projeto de regeneração do humano implica em se expor a ser perseguido e intimidado em um tempo no qual o mal é forte e poderoso. Isso significa que quem não se sacrifica pelo bem do mundo está obrigado a viver dentro da iniquidade e a sofrê-la.

5. Tudo aquilo que é grande, transcendente, significativo, que tem projeção histórica, o que é valioso e excelente, é conflitivo e arriscado. Quem se acovarda perante a dor está condenado a viver no mesquinho e no insignificante, no cotidiano e banal, a entregar sua vida a atos inconsequentes e sem valor. Tudo o que é criativo, estético, belo e sublime exige um quinhão de padecimentos, a Arte com maiúscula desaparecerá de nossas vidas sufocada pelo bem-estar e, por conseguinte, estaremos obrigados a viver entre a fealdade e a aberração.

Sermos capazes de sofrer, mantermo-nos indiferentes diante da aritmética do prazer e do desprazer, é condição para a vida autêntica, para a liberdade e para a virtude pessoal. Esta capacidade hoje está desaparecendo da sociedade, mas de forma particular está sendo anulada entre as mulheres que somos conduzidas à uma deriva de estúpida harmonia interior que não é senão letargia e fraqueza diante do esforço de viver e de ser livres. Superar a dor da existência à base de drogas é o mesmo que renunciar à vida. Aqueles que nos vendem uma felicidade infalível e uma emancipação adulterada, sem luta, sem medo, sem suor e sem sangue, nos vendem uma mercadoria podre, simplesmente isso não existe.

***

[1] Pode entender-se este processo como um crescimento intenso do mal-estar objetivo e real das mulheres ou também como uma manobra das instituições de saúde para medicalizar e narcotizar as mulheres em massa com o pretexto de ajudá-las e protegê-las. Em minha opinião ambos os fatores se complementam e se potenciam um ao outro. 

[2] Nos EUA a morte de mulheres por abuso de analgésicos foi classificada por alguns especialistas como epidemia, a cada dia morrem 18 mulheres norte-americanas por essa causa e se considera que um a cada 10 suicídios tem relação com esse tipo de abuso.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

As guerreiras da Asgarda


guerreras de asgarda 3

Katerina Tarnovska é uma professora de pré-escola ucraniana, uma campeã mundial de kickboxing e ela ainda se declara descendente das lendárias amazonas. Em 2002, ela fundou a Asgarda, uma arte marcial exclusivamente para mulheres inspirada nas tradições tribais das amazonas citas. Na década passada, mais de mil mulheres foram encarregadas de difundir os ensinamentos da Asgarda, que Katerina diz ser o único estilo de luta especificamente desenvolvido para a forma feminina.
A influência de Katerina vai muito além de ensinar as mulheres a transformar seus corpos em armas mortais. Ela já escreveu vários livros instrucionais sobre a Asgarda, compôs incontáveis músicas folclóricas com temática amazona e produziu vídeos de aeróbica nos quais ela, que tem 34 anos, parece uma mistura de Jane Fonda e Tank Girl, se exercita ao som de uma versão ucraniana do Rammstein.
Recentemente, eu me juntei a uma das sessões de treinamento da Asgarda nas Montanhas Cárpatos, que são mais ou menos como acampamentos de verão só para garotas, mas com aulas nas quais as meninas aprendem a usar sabres, machados e citas em vez de fazer artesanato. Antes de encontrar Katerina, eu imaginei que a gente discutiria principalmente como é ser uma mulher na sociedade patriarcal ucraniana — o parlamento do país é 90% masculino e a violência doméstica é um grande problema. Mas ela estava mais inclinada a falar sobre como ganhar o coração de um guerreiro, algo fundamental para realizar seu estranho plano nacionalista de começar uma nova geração de guerreiros ucranianos.
Entrevistadora: Como a Asgarda começou?

Katerina Tarnovska (Asgarda): Quando descobri que as amazonas existiram em nosso território, cheguei à conclusão de que o espírito delas tinha sido passado geneticamente para as mulheres ucranianas. Foi o espírito com o qual nasci. A casta guerreira ucraniana foi destruída, pouco restou disso. E o renascimento da casta depende da capacidade das mulheres em criar garotos que venham a se tornar guerreiros. Foi dessa ideia que se formou a Asgarda. Como uma pessoa envolvida profissionalmente em artes marciais, esse era meu caminho, o caminho do guerreiro.
Mas as amazonas não odiavam os homens e queriam matá-los?

Não. Homens que tinham medo delas, especificamente os gregos antigos, escreveram esses mitos sobre mulheres cruéis porque as amazonas com frequência lutavam contra eles, e alguns mitos dizem que os gregos perderam. Indo até a fonte histórica, você vai descobrir que as amazonas amavam os homens, se casavam e tinham filhos com os citas. Eu posso dizer, com confiança, que sou uma amazona, e que isso não me impede de me apaixonar e ter filhos.
Você diria que a Asgarda é um movimento que visa dar poder às mulheres?

Sim. É importante para homens e mulheres se aceitarem em bases iguais, mas isso não significa que somos a mesma coisa. A Asgarda é uma plataforma para desenvolver as garotas de maneira harmoniosa por meio das artes marciais e fortalecer a posição delas dentro da sociedade, assim, elas podem se realizar dentro de suas famílias, negócios ou da política; no entanto, em casa com seu marido, uma mulher tem que ser uma mulher.

O que isso quer dizer?

Na sociedade, você conquista coisas para si mesma, mas na família, o desafio é encontrar nossa força na tolerância e no amor. Nos relacionamentos, a mulher tem um papel muito importante. Quando ela está com seu marido, ela precisa fazer ele se sentir como um homem. Assim não haverá nenhum problema.
E como você faz um cara se sentir homem?

Primeiro, você o encanta e ele quer ficar com você porque vê uma rainha. Mas como os cavaleiros de verdade, os homens querem conquistar, vencer. Você precisa fazer o homem sentir que conquistou você. Então, primeiramente, você precisa dar essa sensação a ele e continuar com isso de tempos em tempos. Segundo, você não pode deixar o homem ficar muito confortável, porque assim que ele começa a te considerar como ganha, ele vai querer conquistar outra rainha. Então, a mulher deve permanecer sempre como uma rainha, estar constantemente encantando seu homem e lembrando que ele precisa conquistá-la. Somente a mulher pode alcançar esse equilíbrio, um homem é incapaz disso.
Isso não significa colocar toda a responsabilidade por um relacionamento saudável sobre a mulher?

Olhe, é assim que mulheres fortes como nós vão conquistar um guerreiro. Esse equilíbrio funciona. Hoje, as mulheres em geral entendem isso errado. Elas querem impressionar seus parceiros e, às vezes, competir com eles, mas isso faz o homem se sentir fraco. Obviamente, há homens que não querem conquistar, mas eles vão querer uma rata, não uma guerreira.
Muitas mulheres podem achar esse tipo de dinâmica fora de moda e injusta.

Desde os tempos antigos o homem tem sido o caçador, o guerreiro que conquista e sustenta o lar, e a mulher tem sido a defensora da família e a pessoa no comando da casa. Ela cria todo o amor na família para que as crianças possam se desenvolver e para que o homem possa progredir e trazer os troféus conquistados pelo mundo para casa. Isso dá a ela a oportunidade de se desenvolver. Porque quando um homem vai caçar, a mulher não precisa se preocupar em como alimentar a família. O mundo foi criado assim e é preciso viver com as leis da natureza. Se formos contra as leis, vamos sofrer.
Mas agora temos supermercados e não vivemos mais em cavernas...

Toda mulher forte é, no entanto, uma mulher. É algo que você nunca pode esquecer. É algo para se alegrar e desenvolver juntamente com suas forças. Levou muito tempo para que eu entendesse a frase “A força da mulher é sua fraqueza”. Sim, sou uma mulher forte. Sim, eu treino. Sim, eu luto. Sou uma excelente organizadora. Sou uma boa líder e uma pessoa que já leu muito. Mas num relacionamento, eu vou mostrar minha fraqueza.
Você é casada?

Eu era, mas agora sou divorciada. Ele não conseguiu lidar com minhas aspirações de me tornar uma campeã mundial de kickboxing. Mas isso era meu sonho desde a infância, então, precisei fazer uma escolha. Você precisa encontrar um homem mais forte do que você, porque só assim ele saberá lidar com suas ambições. Preciso de um homem muito forte, o que é difícil de encontrar. Mas tenho confiança de que o amor vai cruzar meu caminho de novo.
Se você tivesse um namorado e vocês dois tivessem uma luta, quem venceria?

Eu venceria. Se ele me amasse, ele me deixaria ganhar.
Você se incomoda com a taxa de desemprego tão alta entre as mulheres ucranianas?

A razão para o alto desemprego das mulheres é porque muitas fábricas fecharam e os trabalhos que restaram exigem força física, então, é mais fácil para os homens conseguir empregos. Ainda assim, acho que se uma mulher quer realizar seu potencial, ela sempre tem a habilidade para fazer isso. Todas as minhas amigas trabalham.
A Ucrânia também tem uma taxa aterrorizante de abuso contra mulheres. É por isso que você ensina autodefesa a essas garotas?

Quando os homens não conseguem se realizar, eles bebem muito, o que leva à violência doméstica. O alcoolismo é um problema grave na Ucrânia. Sim, se defender nas ruas e em casa contra agressões é importante. Quando minhas garotas da Asgarda completam 14 anos, conversamos sobre como um homem deve ser, treinamos elas para ver se o garoto de que gostam é um homem ou só uma pessoa do sexo masculino.
Como você sabe que um homem é um homem de verdade?

Uma pessoa do sexo masculino é egoísta e não consegue completar sua missão masculina fora a parte sexual. Um homem de verdade tem uma missão; ele precisa saber como ganhar dinheiro para sustentar sua família e defender a honra dela. Mais importante, ele precisa ter um estilo de vida saudável. Quando as garotas fazem 18 anos e começam a gostar de um cara, eu faço a elas uma pergunta simples: você quer apenas fazer sexo com ele por satisfação física ou você quer que seus filhos tenham os genes desse cara? Quando elas respondem, isso se torna algo simples. A Asgarda treina guerreiras para restaurar a casta dos guerreiros na Ucrânia, logo, as garotas precisam saber com que tipo de homem elas devem casar e ter filhos.
Por que restaurar a casta dos guerreiros é tão importante para você?

Se você não ama e não quer defender seu país, a próxima geração não vai ter orgulho de suas origens e vai querer ir embora em vez de ficar e fazer o país florescer. O amor de uma pessoa por seu país é passado através do leite materno.
Você se considera uma feminista?

Aqui eu preciso perguntar o que você quer dizer com feminista. Em nosso país, entendemos que o feminismo acredita que as mulheres são completamente independentes e que a influência dos homens é negativa.
Para mim, feminismo significa que homens e mulheres devem ter direitos iguais. O que você descreveu é o que eu chamaria de feminismo radical.

Se o feminismo visa defender a posição da mulher na sociedade, então sou feminista. Mas se o feminismo significa que as mulheres são os seres mais fortes e que devem se voltar contra os homens, então não, não sou feminista. Acredito na ordem natural das coisas. A missão da mulher é ter filhos.
Mas e se você não quiser ser mãe? E se houver muitas outras coisas importantes para você, como a carreira e a liberdade pessoal?

Para ter uma vida saudável e feliz, uma mulher precisa atingir algo por si mesma primeiro, claro. A autorrealização é importante. A mulher só estará pronta para a vida em família quando atingir seu pleno desenvolvimento pessoal, só então ela será capaz de passar sua sabedoria para os filhos.
FONTE: VICE

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Do sublime ao ridículo: um passo apenas

Por Evita Perón.


XLVIII



Confesso que no dia em que se abriu diante de mim a possibilidade do "caminho feminista", experimentei um pouco de mêdo. Que poderia fazer eu, mulher do povo, onde outras mulheres, mais preparadas, tinham fracassado fragorosamente? Cair no ridículo? Engrossar a falange de mulheres ressentidas com a mulher e com o homem, como tem acontecido com inúmeras líderes feministas?

Por outra parte, não era solteira, velha nem desgraciosa, para ocupar um lugar assim, que, desde que se tem memória, pertence por direito próprio, desde as feministas inglêsas clássicas, até às destas latitudes,
a mulheres dêsse tipo, mulheres cuja primeira vocação foi, decerto, a de serem homens. Tais eram, tais saíram os movimentos por elas orientados!

Primava nelas, antes o despeito de não terem nascido homens, do que o orgulho de se sentirem mulheres.
Acreditavam ser uma injustiça haverem nascido mulheres. Ressentidas com as mulheres, porque não queriam deixar de o ser, e ressentidas com os homens porque não lhes consentiam ser como êles, as "feministas", a imensa maioria das feministas do mundo, até onde as conheço, constituíram um raro espécime de mulher que não me pareceu nunca totalmente mulher! De modo algum aceitava parecer-me com elas.

O General deu-me a explicação de que precisava: "Então não vês que essas mulheres erraram o caminho? Querem ser homens. Tal como se eu, para salvar os trabalhadores, houvesse pretendido fazer deles oligarcas. Teria ficado sem operários! E mais, não teria conseguido com isso melhorar em nada a oligarquia. Não vês que essa classe de "feministas" renega a mulher? Algumas nem sequer se pintam. Qual! Isso é coisa de mulheres! Aspiram a masculinizar-se. E se do que o mundo necessita é de um movimento político e social feminino, que poderá lucrar com mulheres que pretendem salvá-lo, imitando os homens? Nós já fizemos muitas atrapalhações, tantas, que não sei ainda se o mundo terá consêrto. Talvez a mulher possa salvá-lo, desde que não nos imite..."

Tenho sempre presente à memória aquela lição do General.
Nunca, como então, parece-me tão claro e luminoso o seu pensamento.
Era exatamente isso o que eu sentia.
Sentia que o movimento feminino no meu país e no mundo inteiro estava fadado a cumprir uma missão sublime. E o mau era que tudo quanto conhecia acêrca de feminismo se me antolhava ridículo. Isso porque feminismo, liderado não por mulheres mas por marimachos que aspirando a ser homens, nada tinham de mulheres, dera o passo que vai do sublime ao ridículo!
O passo que eu tratei de não dar jamais!



IN: A razão de minha vida. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Como o Casamento Deveria Ser

Por Anthony M. Ludovici


Ao escolher um companheiro, uma das primeiras questões consideradas é; meu companheiro deve ser igual ou diferente de mim?

O que nós realmente encontramos os amantes fazendo quando eles desejam primeiramente convencer um ao outro de que amam, sem, no entanto, proferir as palavras fatais? Será que eles não sujeitam o outro a um exame rigoroso em relação a todos os seus hábitos da mente e do corpo, desde a literatura até o tipo de comida que cada um prefere?

‘Você gosta disso? Eu também!’ Esse é o incessante refrão alegre das primeiras conversas ardentes, quando cada um está secretamente desejando dizer ao outro que a chama do amor já foi acesa.

‘Que divertido, você gosta de comer casca de laranja! Eu também! Que estranho! Você gosta do Sankhayana-Brahmanas? Eu também!’ Etc.

Todos nós já tivemos tais conversas. Todos nós já mentimos sem escrúpulos na tentativa de manter os dois gostos absolutamente idênticos. E todos nós já ruborizamos no final, quando tornou-se claro para ambos que não havia um único ponto, exceto, talvez, no melhor material para calções, em que diferíamos.

O que isso significa? É muito profundo e muito inconsciente, porque todo mundo faz isso. Mesmo aqueles que conscientemente acreditam em casar com o oposto. Será que isso significa que há um instinto primitivo nos homens, assim como existe nos animais, de escolher seu semelhante e se alegrar quando ele for encontrado? E não é que toda essa catequização sobre gostos indica que também há um desejo de ter a certeza de que o instinto foi gratificado?

Os leitores podem objetar que isso é uma questão de pura cautela para determinar os gostos de uma pessoa com quem você talvez tenha que conviver. Mas é muito mais do que isso. Não é um exame para descobrir os gostos do parceiro em potencial. Isso é apenas incidental. É a expressão de um desejo de demonstrar que não importa se os gostos do parceiro em potencial são compartilhados com ele ou ela. Não é uma investigação na qual os gostos são aprovados ou reprovados, mas sim onde apenas a semelhança de gostos é aprovada. É o resultado de um motivo inconsciente, e não consciente. Porque muitas vezes, repito, aquele que se entrega a tal interrogatório, no próximo fôlego irá consciente e estupidamente declarar que não acredita na conveniência de gostos semelhantes em cônjuges e acha que a vida seria muito sem graça se todos pensassem igualmente , e assim por diante — de fato, a tagarelice habitual das condições sociais democráticas, discutidoras e inquietas. 

Presumo que este fogo do interrogatório, com a alegria que acompanha todas as provas de semelhança, é uma indicação de que sob o insalubre verniz democrático há um impulso natural que possuímos em comum com os animais, de buscar o nosso semelhante. E mesmo quando somos suficientemente equivocados para escolher um parceiro que é o nosso oposto, tentamos, pelo menos em espírito, estabelecer uma identidade de gostos e matriz comum. (A Escolha de um Companheiro, p. 43-4)

* * *

O que é a convicção mais íntima de um homem ou mulher que diz que se deve escolher o oposto?

Se a declaração é deliberada, e não dita de brincadeira, ou por meio de uma etiqueta popular impensadamente repetida, isso não indicaria um desejo de correção? Quer dizer, para a correção das próprias ações ou qualidades individuais, tanto físicas quanto psicológicas? E onde há um desejo para a correção, pode não haver desprezo por si mesmo, sentimentos de inferioridade — de fato, dúvidas quanto à conveniência de um modo geral?

Uma criatura orgulhosa das desejáveis ​​características adquiridas através de suas ações não procura um oposto, uma correção, pois seus filhos poderiam anular ou adulterar o seu objeto de orgulho. Por que deveria? De fato, como veremos em breve, parece ser um instinto enraizado em todos os animais sadios e nas raças humanas, para segregarem e se manterem distantes a partir do momento em que se distinguem do resto pela aquisição.

Somente o doentio, aquele que despreza a si mesmo, tem o instinto de solicitar uma correcção ou modificação no casamento. Daí provém, possivelmente, a popularidade da ideia de companheiros desiguais nos tempos degenerados. Essas pessoas, também, que sentem que estão muito deslocadas da média das pessoas ou da sua nação, e estão conscientes de serem estranhas, tenderão a procurar por meios de modificar suas excentricidades nos seus filhos ao escolher um companheiro que exibe características contrárias às suas próprias.

A pessoa mediana saudável, no entanto, tende a procurar um par igual e evitar o oposto, não apenas por instinto, mas conscientemente por um desejo de preservar sua qualidades conquistadas. Essa pessoa busca seu igual, além disso, porque se ele é um observador inteligente dos seus companheiros, sabe que há razões suficientes para discórdia no casamento sem multiplicá-las indevidamente pela seleção de um companheiro que, por morfologia e temperamento (ou seja, por fundamentos insuperáveis e não modificáveis​​), discordaria dele em centenas de coisas.

Aqueles que, neste contexto, argumentam que a vida é interessante pelas divergências, são românticos sem qualquer conhecimento da luz cruel que a intimidade derrama sobre a menor divergência do parceiro, e da exasperação que tais divergências costumam causar.

A vida de casado não é uma vida parlamentar. Não é uma instituição para desviar a nação com suas brigas. Debates e diferenças de opinião, especialmente aqueles baseados em diferenças psicofísicas, não costumam conduzir a muito entretenimento ou alegria na vida conjugal. É importante, portanto, além de quaisquer razões biológicas que podem ser apresentadas a seguir e apenas por causa da paz e durabilidade do afeto mútuo, escolher um parceiro igual para o relacionamento, embora isso possa parecer impopular nestes dias anárquicos e democráticos. (A Escolha de um Companheiro, p. 45-6)

* * *

... Acho que esse costume a priori — na medida em que é harmonia social e ordem, saudável e duradouro — deve ser o produto de um homem ordenado, harmonioso e saudável.  E se eu voltar meus olhos do caos social de hoje para as origens das culturas mais harmoniosas e saudáveis​​, suponho sem inquérito que as pessoas que criaram essas culturas deveriam ser diferente de nós pelo menos no seguinte: elas eram harmoniosamente constituídas e vigorosamente saudáveis. Elas eram bonitas, harmoniosas e saudáveis; consequentemente, suas criações não deixavam de ser bonitas, harmoniosas e saudáveis.

Passando agora dessas conclusões a priori aos fatos, o que encontramos? Nós encontramos não apenas que essas culturas antigas eram realmente muito harmoniosas, mas também que seu vigor e poder devem ter sido muito grandes, por isso nossa cultura deve o pouco de beleza, harmonia e saúde que possui inteiramente a elas.

Um fato ainda mais interessante é que todas essas culturas surgiram em áreas naturalmente ou artificialmente confinadas, onde a tolerabilidade, a fraternidade universal da humanidade, o internacionalismo, o amor ao próximo e outras formas de declamações eram completamente desconhecidas. Encontramos essas culturas originalmente em ilhas como Creta e Japão; penínsulas como a Índia, Grécia e Itália; áreas naturalmente fechadas, como o Peru, a Mesopotâmia e o Egito e áreas artificialmente fechadas como a China e a antiga Palestina.

Além disso, sabemos que onde a relação com o mundo exterior, com o vizinho, é restringida, as pessoas isoladas são condenadas à endogamia — isto é, de qualquer modo, a uma forma de relação que une dois iguais. Nas únicas culturas que deixaram uma marca permanente no mundo encontramos, no entanto, não apenas a consanguinidade, mas também uma forte tendência consciente a manter distância e segregar. E isso causou, além de uma fronteira de preconceito e desconfiança entre a nação isolada e o mundo exterior, uma série de fronteiras dentro da própria nação, dividindo classes e castas, de modo que dentro da massa endogâmica, classes endogâmicas menores foram formadas. 

Era assim entre os egípcios, judeus, hindus e peruanos. Em todos esses casos, foi um instinto inconsciente de separar, ou um orgulho consciente de raça e de casta, que causou a segregação. O mesmo parece ter procedido entre os antigos habitantes das ilhas britânicas e seus invasores germânicos... Entre os principais povos responsáveis ​​pela nossa civilização — egípcios, judeus, gregos e saxões — a aversão ao estrangeiro era tão grande que, em alguns casos, sua própria palavra ao estrangeiro era uma palavra de opróbrio. E cada um desses povos não eram apenas endogâmicos, mas também incestuosos. (A Escolha de um Companheiro, p. 51-5)

* * *

Aqueles que afirmam que as raças que são o resultado de um cruzamento, ou de vários cruzamentos, geralmente são superiores, pertencem também a essa parte do mundo moderno que, obcecada com o erro de que a consanguinidade é per se deletéria, imprudentemente assume que a exogamia ou reprodução mista deve ser necessariamente vantajosa.

Para dizer a verdade, todavia,... não há virtude essencial na reprodução mista. Essas qualidades desejáveis ​​ainda não presentes nas ações parentais não são suscetíveis de serem criadas por qualquer quantia de cruzamento ou recruzamento, enquanto aquelas que são, devem ser suscetíveis à atenuação e diluição. Mesmo quando a heterose produz qualidades favoráveis​​, é preciso lembrar que não são espontaneamente criadas pelo simples ato de cruzar apenas dois seres puros. Elas são apenas intensificações de qualidades pré-existentes.

Ninguém diria que os incessantes cruzamentos entre inúmeras raças que vêm acontecendo no Levante ou na América do Sul, desde que os antigos gregos e peruanos deixaram de existir, produziram nada assim tão desejável quanto esses dois povos puros produziam. Ninguém diria que a moderna América do Norte, com sua miscelânea de raças, é superior ao antigo Egito puro. Nem ninguém em sã consciência jamais esperaria algo como a grandeza dos Estados Unidos que o Egito é conhecido por ter alcançado.

Não pode, portanto, haver qualquer virtude no cruzamento per se, e aqueles que alegam que há virtude, falam sem autoridade e em contradição com os fatos reunidos. (A Escolha de um Companheiro, p. 118)



O Filósofo Perdido: O Melhor de Anthony M. Ludovici, ed. John V. Day (Berkeley, Cal.: ETSF, 2003)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Aspecto "Mariano" das Mulheres de Tolkien

“Nós viemos de Deus, e, inevitavelmente, os mitos tecidos por nós, apesar de conterem erros, refletirão também um fragmento estilhaçado da Verdadeira Luz, a verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas pela criação dos mitos, apenas tornando-se um ‘sub-criador’ e inventando histórias, o homem pode aspirar ao estado de perfeição que ele conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser equivocados, mas orientam tremulamente em direção ao porto verdadeiro, enquanto o “progresso” materialista conduz apenas a um abismo escancarado e à Coroa de Ferro do poder maligno.” – J.R.R. Tolkien (J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, Humphrey Carpenter, Cap. IV, 1977)


Recentemente assisti a uma entrevista com Cate Blancett, que interpreta a Galadriel em O Senhor dos Anéis / O Hobbit e ela mencionou, quase cinicamente, que Tolkien não escreveu muitas personagens femininas fortes.O que, é claro, não é verdade. Eu diria que as personagens femininas do Senhor dos Anéis e do Hobbit são muito fortes e extremamente importantes. Não se trata da quantidade de personagens femininas, mas sim de qualidade.

Eu sei que não sou a primeira pessoa a fazer essas conexões, então definitivamente não estou reivindicando a posse dessas ideias, mas as mulheres da Terra Média, em minha mente, são personificações das qualidades de Maria. Se isso é ou não verdadeiro (ou o que Tolkien pretendia) não é o foco deste post; essas opiniões só me ajudam a apreciar ainda mais a série e acrescentar ao brilhante trabalho de Tolkien.


Arwen: Rainha

Arwen representa a Realeza de Maria, o aspecto real da Mãe de Deus. Se Aragorn representa o aspecto real de Cristo (o que certamente ele faz), então na minha mente só faz sentido que Arwen sejao equivalente real feminino.

Embora Arwen já tenha alguma realeza nela (assim como Maria, estando unida com José e o reino de Davi), assim como ela não pode se tornar rainha até que o rei assuma o trono, Maria não pode assumir e ser coroada até que Cristo assuma Seu trono.


Galadriel: Intercessora

Ela possui muitas denominações diferentes; Senhora de Lórien, Senhora da Luz, Senhora da Floresta, e simplesmente A Senhora. É tão Mariana que não posso nem suportar.

Ela é quem dá presentes, quando a Sociedade deixa a floresta. Ela dá muitos, mas os dois mais importantes são o pão de lembas e o Frasco de Galadriel “uma luz, quando todas as outras luzes se forem”.

Lembas é o pão especial feito pelos elfos que se mantém fresco por mais tempo do que o pão normal e sustenta a vida melhor do que o pão normal. Basicamente é um símbolo da Eucaristia, que mantém os homens mais completos e permite-lhes continuar em sua árdua jornada.

Então, Galadriel fornece pão de sustentação da vida. Maria tem a Eucaristia viva para nós.
Ao meu ver, o Frasco de Galadriel pode ser comparado ao Espírito Santo. É uma luz na escuridão, uma maneira de se livrar de qualquer maldade que nos atormenta. Sam e Frodo usam-no na toca de Laracna e quando eles estão dentro de Mordor. Trecho retirado da página d’O Senhor dos Anéis na wikipédia: “O Frasco de Galadriel parecia inspirar seus portadores a invocar Elbereth, como Frodo e Sam chamam na língua élfica, e Frodo também grita palavras que ele não entende que se referem a Eärendil, na primeira vez que usa o frasco contra Laracna”.
 
Maria nos dá presentes assim. Quando ela apareceu a Santa Catarina Labouré e presenteou-a com a Medalha Milagrosa, Maria disse que ela é mediadora de graças e pode dar-lhes como quiser.


Éowyn: Guerreira

Acho que todas querem ser a  Éowyn, sendo que ela é uma princesa, mas não uma princesa cor-de-rosa e fraca; ela salva o dia. Ela é a melhor.

Ela representa o papel guerreiro que Maria desempenha, assim como o puro aspecto humano. Basicamente, em O Senhor dos Anéis, todo mundo fica farto dos seres humanos porque provaram ser inúteis e fracos. O rei de Rohan é possuído por Grima Língua de Cobra, que levou o rei a um estado de desespero.

Eventualmente, Gandalf se livra dele (“Mantenha sua língua bifurcada atrás de seus dentes!”) e a doença do Rei é curada, então vemos uma lenta elevação de coragem na humanidade.

Quando todo mundo vai para a batalha, mandam Éowyn ficar para trás, mas todos sabemos que ela não vai fazer isso. Então, ela foge para a batalha e luta. O Rei Bruxo aparece montando uma Besta Caída, Éowyn o enfrenta e ele diz “Nenhum homem mortal pode me impedir!” ao passo que Éowyn responde “Mas não sou nenhum homem mortal! Você está olhando para uma mulher! Sou Éowyn, filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que também é meu parente. Suma daqui, se não for mortal! Pois seja vivo ou morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele!”


Em seguida, ela corta a cabeça do dragão e apunhala o Rei Bruxo no rosto e o mata. Então deixe que o simbolismo de Gênesis 3:15 fale por si só: “ela lhe esmagará a cabeça” (ela esmagará a cabeça da serpente).


Rosinha Villa: Mãe

Rosinha Villa é uma das minhas personagens favoritas, porque ela representa tudo de bom e saudável nos hobbits, no Condado, e na Terra-média. Sam e Rosie tiveram 13 filhos: Elanor, a Bela, Frodo, Rosa, Merry, Pippin, Cachinhos Dourados, Hamfast, Margarida, Primavera, Bilbo, Rubi, Robin e Tolman. Como não amá-los?

"Acho que o simples amor 'rústico’ entre Sam e sua Rosinha (nada elaborado) é absolutamente essencial para o estudo do seu personagem (o chefe do herói), e para o tema da relação entre a vida comum (respirar, comer, trabalhar, criar) e as missões, o sacrifício, as causas, o 'desejo por Elfos', e a pura beleza” —  JRR Tolkien, em uma carta datada de 1951

Então, na minha mente, Rosinha personifica o papel maternal que Maria desempenha em nossas vidas, mais claramente porque ela é uma mãe, e também porque ela parece sem importância, ou talvez uma ideia adicional. Nós conhecemo-na logo no início dos filmes, na festa de aniversário de Bilbo, mas aparece mais como uma ferramenta de desenvolvimento de personagem para mostrar-nos o quão estranho Sam pode ser. Mas então, no final de todas as coisas, quando Frodo e Sam estão sentados na montanha, condenados e certos de que irão morrer, Sam traz Rosinha ao seu pensamento.

Já que eu gosto de tomar um rumo demasiado envolvido com os personagens fictícios, cheguei à conclusão de que o amor de Sam por Frodo, obviamente, levou-o ao longo dessa jornada, mas o seu amor por Rosinha também. Então, eu comparo isso com Maria, quando aparece no início do Evangelho para montar o cenário, desenvolver os “personagens” e ver Jesus em Sua jornada. E então, no fim de todas as coisas, quando a morte Dele é iminente, Maria está lá e vemos como ela é importante quando Cristo lhe dá a João (e a todos nós). Embora Rosinha não tivesse viajado com a Irmandade ou “fizesse” muita coisa, ela é vital para o sucesso da missão por causa do que ela representa (como Tolkien disse, a vida comum e a beleza pura).



Texto retirado do blog Two Catholic Girls