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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A fuga da dor como fuga da vida

por María del Prado Esteban

“Viver é lutar e a luta sempre é dolorosa.” Félix Martí Ibañez 


O uso de antidepressivos disparou em toda Europa, praticamente dobrou no último decênio. No Estado espanhol o consumo destes fármacos aumentou em 38%, porém o de hipnóticos e sedativos o fez em 66% e esse crescimento é, além disso, exponencial.

A utilização de psicotrópicos é especialmente aterradora entre as mulheres, ao menos 25% da população feminina toma algum narcótico para aliviar a dor de viver.

Não há dúvida de que a vida se tornou cada vez mais insuportável para um número crescente de pessoas e principalmente de mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Ministério de Sanidade e Consumo (Espanha), a depressão feminina passou de 6, 58% para 20, 49% entre 2003 e 2006. Isto quer dizer que o número de enfermas psíquicas [1] triplicou em apenas três anos, anos que foram, ademais, os das grandes campanhas institucionais a favor da mulher e da criação do primeiro Ministério da Igualdade.

O certo é que emerge uma nova personalidade débil, mole, egocentrada de forma narcisista, incoerente e minguada, cujas emoções não sustentam suas funções superiores, mas as anulam; que essa personalidade é muito mais comum entre o sexo feminino e que este sujeito, assim constituído, é um potencial viciado em substâncias psicoativas, sejam estas legais ou ilegais.

A verdade é, também, que tal indivíduo está sendo criado pela intervenção dos funcionários do Estado do bem-estar que incorporam cada vez mais pessoas ao seu protocolo de medicalização, convencendo assim seus pacientes que a vida não vale a pena ser vivida e que tudo o que podemos fazer é anestesiar o corpo [2] e a alma para não sofrer, não pensar e não sentir.

Enquanto as substâncias químicas nos envenenam o corpo, apareceu um novo mercado de narcóticos espirituais dirigidos de forma especial à população feminina, uma indústria que proporciona numerosos benefícios aos vendedores da cura milagrosa e da felicidade ao pé da letra. Cursos, oficinas e encontros que prometem uma beatífica apatia como paradigma da alegria e do otimismo. Estas drogas, tão nocivas como as primeiras, nos oferecem uma saída escapista da realidade e permitem que nossa vida autêntica siga se degradando enquanto fechamos os olhos e destruímos nosso mundo interior para converter-nos em autômatos sorridentes e apalermados, cegos frente ao horror da realidade circundante e à nossa própria condição.

Há uma grande tragédia na incapacidade moderna para a aceitação da dor, uma tragédia autêntica, porque esta fuga do mal-estar, paradoxalmente, aumenta até o infinito o padecimento pessoal e social. Renunciar ao sofrimento significa renunciar a muitas coisas fundamentais que dão sentido à vida. Significa:

1. A renúncia à consciência do mundo, da verdade e do real. O esforço para aproximar-se da verdade das coisas é amargo porque implica um trabalho árduo, ás vezes sobrehumano para superar as barreiras descomunais que o sistema impõe. A vitória sobre a mentira e o erro não é fácil nem cômoda, é dura e sofrida, nos condena a viver com consciência de nossas limitações e, muitas vezes, em meio a incertezas e dúvidas. Por outro lado, a defesa da verdade requer uma enorme dose de coragem e desprezo pela tranquilidade e pelo próprio bem-estar. Hoje, na sociedade da mentira obrigatória, os que lutam pela verdade estão condenados ao ostracismo, perseguição, opróbrio e humilhações sem limites. Quem quiser, pois, alcançar a realidade do mundo e tomar consciência da verdade das coisas, terá que aceitar a dor que isso traz.

2. Quem teme o sofrimento tem de renunciar ao amor. Todas as categorias de amor – o amor sexual, o amor maternal, o amor fraterno, o amor social, a amizade e o amor por convivência, todas – produzem em algum momento a angústia pela incompreensão, o medo da separação e do abandono, o sentimento de vulnerabilidade e dependência. Os vínculos e compromissos amorosos implicam esforço e sacríficio e a abnegação do interesse próprio. Se o amor é uma das experiências humanas mais sublimes e extraordinárias, não está isenta quase nunca, como tudo o que é sublime, do lado trágico. Nas condições atuais de destruição quase total das estruturas de vinculação e compromisso humano, a luta para reconstruir a convivência nos campos social e pessoal terá mais momentos dolorosos do que prazerosos.

3. Quem não está capacitado para o sofrimento não pode alcançar o conhecimento de si mesmo nem auto-construir-se como pessoa, porque todos somos seres divididos e o olhar dirigido ao nosso interior, se é valente e sincero, é doloroso. Quem não estiver disposto a aceitar a realidade de si mesmo por medo da angústia de ver seu lado obscuro, não pode desenvolver em si nem virtude nem excelência alguma, pois todo desenvolvimento implica negação, vazio e privação, e, portanto, desconforto. O medo da dor está nos convertendo em seres-nada esvaziados dos traços humanos de consciência, virtude, vontade e entrega.

4. Quem não está disposto ao sacrifício não pode resistir ao mal que avança inexorável em toda a sociedade, vê-se impelido a colaborar com ele ativa ou passivamente. Não pode, por isso, contribuir para a investida do bem, do justo, do belo e do sublime em todos os âmbitos da vida porque qualquer projeto de regeneração do humano implica em se expor a ser perseguido e intimidado em um tempo no qual o mal é forte e poderoso. Isso significa que quem não se sacrifica pelo bem do mundo está obrigado a viver dentro da iniquidade e a sofrê-la.

5. Tudo aquilo que é grande, transcendente, significativo, que tem projeção histórica, o que é valioso e excelente, é conflitivo e arriscado. Quem se acovarda perante a dor está condenado a viver no mesquinho e no insignificante, no cotidiano e banal, a entregar sua vida a atos inconsequentes e sem valor. Tudo o que é criativo, estético, belo e sublime exige um quinhão de padecimentos, a Arte com maiúscula desaparecerá de nossas vidas sufocada pelo bem-estar e, por conseguinte, estaremos obrigados a viver entre a fealdade e a aberração.

Sermos capazes de sofrer, mantermo-nos indiferentes diante da aritmética do prazer e do desprazer, é condição para a vida autêntica, para a liberdade e para a virtude pessoal. Esta capacidade hoje está desaparecendo da sociedade, mas de forma particular está sendo anulada entre as mulheres que somos conduzidas à uma deriva de estúpida harmonia interior que não é senão letargia e fraqueza diante do esforço de viver e de ser livres. Superar a dor da existência à base de drogas é o mesmo que renunciar à vida. Aqueles que nos vendem uma felicidade infalível e uma emancipação adulterada, sem luta, sem medo, sem suor e sem sangue, nos vendem uma mercadoria podre, simplesmente isso não existe.

***

[1] Pode entender-se este processo como um crescimento intenso do mal-estar objetivo e real das mulheres ou também como uma manobra das instituições de saúde para medicalizar e narcotizar as mulheres em massa com o pretexto de ajudá-las e protegê-las. Em minha opinião ambos os fatores se complementam e se potenciam um ao outro. 

[2] Nos EUA a morte de mulheres por abuso de analgésicos foi classificada por alguns especialistas como epidemia, a cada dia morrem 18 mulheres norte-americanas por essa causa e se considera que um a cada 10 suicídios tem relação com esse tipo de abuso.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Epidemia do Ego: Como as Mulheres Modernas Têm um Senso de Percepção Exagerado Sobre a Própria Imagem





A maioria das mulheres estão mais egocêntricas e narcisistas do que costumavam ser, de acordo com extensivas pesquisas lideradas por dois psicólogos.Mais mulheres apresentam altas expectativas sobre si mesmas, sobre suas vidas e tudo que as envolve.

Uma vez sendo uma tradicional síndrome masculina, narcisismo geralmente tem início em casa e na escola, onde as crianças são elogiadas excessivamente, arruinadas com mimos, além da inexorável mensagem passada pelos pais de que são 'especiais'.

Os professores de psicologia Jean Twenge e Keith Campbell analisaram estudos feitos com 37 mil estudantes de ensino superior em 2006. De modo geral 30% deles afirmaram acreditar que conseguiriam boas notas simplesmente por estarem presentes nas aulas. E não é apenas sobre quão inteligente pensam que são. No trabalho, nas amizades, ainda na maternidade, a cultura dominante tornou-se em competitividade, superioridade.

Mas na esfera na qual esses sinais de auto-obsessão são talvez mais óbvios, e onde talvez as consequências são mais imeditamente percebidas é a esfera dos relacionamentos.

Pesquisas mostram uma crescente evidência de uma epidemia do ego ao nosso redor. Em um artigo recente publicado em uma revista, quatro mulheres ao fim de seus 20 e 30 anos compartilham seus pensamentos a respeito do porque continuam solteiras:

Uma diretora de 39 anos declarou ser muito independente para ter um relacionamento.

Uma empresária do ramo da música,38 anos, atribuiu o fato de estar solteira ao fato de ser uma mulher-alpha: independente, determinada, de personalidade forte, extremamente competente e intimidante. Ela pontuou que possuía um apartamento maravilhoso e bem decorado, um ótimo carro, era frequentadora de uma academia refinada e usava vestidos de grifes famosas, que fazia o que gostava e quando queria. Relatou – e parecia acreditar – que era muito bem sucedida e muito bem educada para a maioria dos homens.

A terceira mulher, uma escritora e curadora de 30 anos de idade afirmou estar se divertindo muito para querer se casar. A última mulher, de 29 anos de idade disse ser muito exigente. Ela estava procurando por um homem que fosse(somente) alto o suficiente. E com uma aparência boa o bastante (mas não suficiente para que ela não ficasse em segundo plano). Ele precisaria ser bem sucedido, determinado, engraçado, bom em contar piadas e fazer brincadeiras, sabendo decentemente evitar aquelas que não fossem boas. Ele precisaria saber levá-la a um bom restaurante, não ter requisitos dietéticos específicos e sempre ser perspicaz sem ser exigente demais. Teria de ser inteligente mas sem fazê-la se sentir ou parecer estúpida. Também teria de saber vestir-se bem sem necessariamente entender do assunto.. e assim a lista continuou.

É claro não há nada de errado com ter altas expectativas. Mas iludir-se e ter em mente um ideal completamente irrealista são problemas diferentes. Margot Medhurt é a fundadora da Yours Sincerely, uma agência de relacionamentos e de apresentação para profissionais com sede em Edimburgo. Ela tem quase 30 anos de experiência na indústria e tem notado um aumento significativo no fenômeno nos últimos anos.

"Era costume que a maiorias das mulheres que se inscreviam na agência tinham uma boa idéia de onde se situavam na questão de elegibilidade. Mas, no últimos anos, tenho notado que há um número significativo de mulheres que não têm mais a mesma percepção."

"Elas tendem a estar nos seus 30 anos, e há uma grande discrepância entre a forma como se percebem e como os outros vêem. São muito claras muitas vezes, mas vêem-se como pessoas excepcionais.

Invariavelmente rejeitam o perfil de qualquer homem que eu enviar. Mas se um deles rejeita seu perfil, há todo um inferno para pagar. É fato desacreditado.

Nos últimos anos, tenho notado um sentido real de direito entre este pequeno grupo de mulheres. Elas muitas vezes se tornam indignadas e zangadas para comigo, exigindo saber por que um homem ousou recusa-las. A maioria das pessoas simplesmente aceitam os fatos do jogo de encontros: algumas pessoas vão achar você atraente outras simplesmente não, do mesmo modo que você poderá tender para alguns e para outros não."

Margot disse que teve um insight, quando leu um artigo recente sobre o aumento do narcisismo entre as mulheres.

De acordo com a pesquisa americana, tem havido um aumento de 67% em questão ao longo das duas últimas décadas, principalmente entre as mulheres. Estima-se que 10% da população sofre de narcisismo como um transtorno de personalidade full-blown. Os sintomas incluem: um senso grandioso de auto-importância, a crença de que ele ou ela é especial ou único e, de alguma forma melhor - seja intelectualmente ou fisicamente- do que outros, a exigência de admiração excessiva; um senso de direito, quer a fama , fortuna, sucesso e felicidade, ou simplesmente a um tratamento especial; inveja dos outros ou a crença de que os outros têm inveja dele ou dela, uma incapacidade de sentir empatia, uma incapacidade de admitir um erro e comportamento arrogante ou atitude.

O que os pesquisadores também identificaram, e demonstraram mais preocupação, é o que tem sido descrito como narcisismo 'normal' - uma mudança cultural que tem visto até mesmo pessoas não-narcísicas atraídas pela ênfase na riqueza material, aparência física e adoração às celebridades.

De fato, nossa cultura traz à tona um comportamento narcisista em quase todos nós. Culpa-se a internet (onde 'fama' é um clique de distância), reality shows (onde a atração da fama sem talento é mais comum), o crédito fácil (o que permite as pessoas a comprar muito além de sua capacidade de pagar), o culto da celebridade, o consumo excessivo, competitividade e individualismo, e uma geração de pais indulgentes que levaram os seus filhos a pensar que são especiais, incríveis e perfeitos.

De acordo com Twenge, esse foco na auto-admiração causou uma fuga da realidade cultural para a terra de fantasia grandiosa.

Temos falsos ricos (que têm realmente pesadas hipotecas e pilhas de dívida), a beleza falsa (através de cirurgia plástica), celebridades falsas (via TV a realidade e YouTube), estudantes gênio falsos (com inflação de notas) e amigos falsos (com a explosão de redes sociais de relacionamento).

Eu tinha notado essa tendência, mas não estava realmente certo do que se tratava ", diz Margaret Medhurt. No entanto, quando li esse artigo e pensei sobre as expectativas irrealistas e senso de direito entre algumas das mulheres, que realmente me dei conta.

Um dos casos que trouxe isso à tona envolvia uma empresária de 38 anos de idade. "Eu sabia que ia ter problemas imediatamente. Assim que alguém se junta a agência, as coisas se movem muito rapidamente - mas isso não foi rápido o suficiente para essa mulher.Ela queria um encontro imediatamente. O primeiro homem que enviei seu perfil recusou uma apresentação prévia e ela foi extremamente rude. Ela não podia aceitar o fato e não podia nem mesmo ser educada sobre isso."

"Em três semanas, três homens dispensaram-na. Expliquei que é preciso tempo para conhecer alguém, mas ela acabou tornando-se mais e mais furiosa. Estava exigindosaber por que esses homens fizeram isso. Eu estava tentando obter o equilíbrio certo -entre ser honesta com ela e ser diplomática."

"Eu acho que, em última instância, ela teve uma percepção muito imperfeita de si mesma. E ela quase não podia suportar que estava sendo desafiada. Era como se não conseguisse lidar com o fato de que alguns homens não a achavam incrível - e então ela deixou a agência".

Os homens, tradicionalmente considerados como a mais auto-centrada das espécies e especialistas no jogo do acasalamento, ficam coçando suas cabeças e ponderando a famosa pergunta: o que as mulheres querem?

David Baxter (seu nome não é real) é um consultor de gestão de 40 anos de idade. Anteriormente casado ​​por nove anos, se juntou a uma agência de relacionamentos no verão. Ele diz que não é perfeito, mas é dito que é um homem qualificado e agradável. "Tive três encontros sucessivos recentemente com senhoras em fim dos seus 30 anos e começo de seus 40 anos de idade que me deixou estupefato", disse ele."Eu nunca me deparei com esses egos enormes, arrogância e falta de cortesia básica."

"Era como se estes encontros particulares fossem um fórum para que me dissessem como eram excepcionais. Uma delas me disse várias vezes quantos rapazes no ginásio a convidaram para sair, a outra era muito artificial. Nenhuma delas era linda de morrer ou tinham personalidades incríveis, empregos ou qualquer outra coisa possa elevá-las em uma posição superior.Eu também achei que foi bastante revelador que nenhuma delas havia sido casada, noiva ou teve recentemente - ou talvez nunca - esteve em um relacionamento de longo prazo.Também sentia que ninguém jamais seria bom o suficiente para elas."

Apesar de sua experiência recente, David ainda se considera sortudo.

"Eu ainda estou positivo sobre a coisa toda, mas tenho amigos que não são tão otimistas e é evidente que encontros com este tipo de mulheres desgastam seriamente a sua auto-confiança, o que é uma verdadeira vergonha."

Neil Hay, 32 anos, é ex-jogador profissional de golfe que virou consultor da área financeira que vive nos arredores de Edimburgo. Ele se juntou a uma agência de relacionamentos há quase um ano.

"Isto me tornou muito cínico, não apenas sobre a forma como as mulheres são, mas também sobre o que diabos elas estão procurando em um homem ", disse ele.

"Claro, todos nós temos padrões e preferências. Não há nada de errado com isso.Mas a maioria de nós também é realista. Elas não estão interessados ​​em um cara normal, decente, razoável. Isso não é bom o suficiente para elas. Passei três horas em um encontro com uma mulher. Eu pensei que tínhamos nos dado muito bem, mas depois ela disse que não queria me encontrar de novo. Isso já aconteceu algumas vezes. É fim de jogo antes mesmo que vocês tivessem a chance de começar a conhecer um ao outro. Fico pensando que ou há algo errado comigo ou que eu apenas nunca vou ser o que estas mulheres estão procurando."

"Eu sei que há um monte de mulheres solteiras que dizem como elas são muito independentes, muito mal-humoradas, confiantes ou muito bem sucedidas para os homens. Ou elas alegam que os homens se sentem intimidados por mulheres fortes, inteligentes e independentes. Mas isso simplesmente não é o caso. Acho que elas só dizem isto a si mesmas. É uma maneira de racionalizar as coisas. É como se fosse mais fácil para elas acreditarem em seus próprios mitos do que encarar a realidade - que elas são completamente comuns".